(Roteiro)
Ademar Lino
Claudinei Pereira
Oscar Ribeiro dos Santos
Sueli de Fátima Zerneri
Espírito Santo do Pinhal, 23 de junho de 1988
Grupo Ianomani de Cultura e Arte
Cena I
A viagem
Homens...
Mulheres...
Crianças...
Espremidos uns contra os outros
Vomitando...
Defecando...
Horripilante atmosfera
Extremada pelo calor.
Cena II
O Navio Negreiro
Treze de Maio!
Mito histórico
Escravidão no Brasil
Libertação dos escravos...
Mas qual escravidão?
Mas qual liberdade?
Desde quando somos livres?
Até quando seremos escravos?
Levam-nos a pensar
Na escravidão do passado
Para que não percebamos
A nossa escravidão presente.
(Pobre daquele
que precisa pedir permissão
para fazer algo).
Queremos a liberdade
De poder escolher
A quem servir.
Queremos a liberdade
Até mesmo
De podermos escolher
Não servir a ninguém.
Ser livre é não ter
Que servir a ninguém!
Cena III
O batismo
Precisamos salvar a alma dos negros
Os males físicos
E a perda da liberdade
São amplamente compensados
Pelo “caminho da salvação espiritual”
Através da conversão ao cristianismo.
Tudo para o seu bem
Para a salvação de sua alma.
A virtude do homem
Está em trabalhar duro
Para o seu sustento
Em conformar-se
E manter-se manso
Como Cristo o foi.
Submeter-se à ordem vigente!
Respeitar o seu Senhor!
Arrepender-se de suas faltas!
Para alcançar o Paraíso Celeste!
Cena IV
O mercado
Vende-se por cômodo preço
Um escravo preto
De 45 anos pouco mais ou menos
Excelente oficial de pedreiro.
Aluga-se uma escrava
Para todo serviço doméstico
Na rua do Bom Jesus
Número 27.
No dia 15
Fugiu o escravo Dionísio
De 45 anos
Crioulo
Fala mansa e pausada
Modos que demonstram
Humildade
Mas também tem
Mais de 30 fugidas.
Vende-se uma escrava
No pátio de São Bento
Quarta cada do canto
Da rua Boa Vista.
Negrinha:
Existe uma
Para alugar
Na rua Góes
Número 1.
Fugiu em dias de março
O escravo Pantaleão
Baiano
30 anos
alto
fulo
nariz afilado
boa dentadura
Oferece-se boa gratificação
E protesta-se
Com todo rigor da lei
Contra quem lhe der couto.
Vende-se
Uma elegante e bonita mucama
Recolhida de casa particular
Com 18 anos mais ou menos.
Sabe engomar
Roupa de homem e senhora,
Costurar e cortar figurinos,
Tudo com perfeição.
O motivo da venda
Não desagradará o comprador.
Na travessa do Paissandu nº 3
Necessita-se de uma alugada
De 10 a 12 anos
Para lidar com crianças.
Prefere-se escrava.
Vende-se
3 excelentes escravos
sendo, um moleque
de 16 para 17 anos
Bonita figura;
outro de 35 anos,
habilíssimo em serviços de lavoura;
e uma crioula de 14 para 15 anos
Bonita estampa.
Vejam este negro:
Forte
De corpo bem feito
Bonito de cara
Canela fina
Boa dentadura
Pouca barba
Fala bem.
PRECISO DE UM ESCRAVO SADIO E FIEL.
Cena V
Zumbi
Em nome de um Deus
Supostamente branco
E
Colonizador
Que nações cristãs
Têm adorado
Como se fosse
O Deus Pai
De
Nosso Senhor Jesus Cristo,
Milhões de negros
Vêm sendo submetidos
Durante séculos
À escravidão
Ao desespero
E à morte.
Deportados como
“peças” do Ancestral Aruanda,
encheram de mão-de-obra barata
os canaviais...
as minas...
Servindo
Os brancos senhores
As brancas madames
Indivíduos desaculturados
Clandestinos
Inviáveis
Encheram as senzalas
E enchem ainda de subgente:
Cozinhas
Cais
Bordéis
Favelas
Baixadas
Xadrezes
É a lei dos brancos...
SURGE ZUMBI!
SURGE QUILOMBOS!
Floresceu a liberdade impossível
E a identidade proibida
Em nome de um Deus único
Que fez toda a carne
A preta e a branca
Vermelhas no sangue.
Vamos reconquistar Palmares
Vamos voltar à Aruanda!
Vamos garantir a paz e a liberdade
Ao povo negro
Sacrificado
Pelos poderes do império
E pelos poderes do templo.
Estamos aí!
De pé!
Quebrando muitos grilhões
Em casa
Na rua
No trabalho
Na igreja.
Fulgurantemente negros
Ao sol da luta
E da esperança;
VINTE DE NOVEMBRO
MORRE ZUMBI.
Cena VI
A festa
No último dia 10 do mês
O nosso amigo Comendador
Joaquim Batista do Amaral
Findo o toque do sino
Faz saber a toda aquela
Porção de homens
Que findava o estigma do cativeiro...
O honrado lavrador
Veio a perder alguns contos de réis,
Mas ficou amplamente compensado
No gozo da consciência...
Ele ainda fez mais:
Brindou os libertos
Com grande e lauto jantar
Em que se deram
Animadíssimas cenas de gratidão
Por parte daqueles rudes corações...
Um dos pretos levantou-se
Com esse brinde:
- À liberdade!
Sendo seguido pelos outros:
- Ao nosso senhor de ontem!
- Ao nosso patrão de hoje!
Cena VII
A Lei Áurea
- A escravidão é um atentado à dignidade humana!
- Não vou dar a liberdade!
- Devemos minorar as angústias dos escravos!
- O escravo é meu!
- Temos que lhes suavizar as condições de existência!
- Alforria jamais!
- A lei terá que por fim a tamanhas atrocidades!
- Paguei caro pelo meu escravo!
- É infame, é degradante a escravidão!
- Quem pagará pelos meus prejuízos?
- Precisamos tirar os escravos das fazendas!
- Quem trabalhará nos canaviais?
- Meu Deus! Não há mais escravos em minhas terras!
Houve grande agitação para que a Lei Áurea fosse promulgada.
A PRINCESA IMPERIAL REGENTE EM NOME DE SUA MAJESTADE O IMPERADOR
D. PEDRO II, FAZ SABER A TODOS OS SÚDITOS DO IMPÉRIO QUE A ASSEMBLÉIA
GERAL DECIDIU E ELA SANCIONOU A SEGUINTE LEI:
Art. 1º - É declarada extinta desde a data desta Lei a escravidão no Brasil.
Art. 2º - Revogam-se as disposições em contrário.
A partir deste instante
A liberdade será algo vivo e transparente
Como o fogo ou um rio,
Ou como a semente de trigo,
E sua morada será sempre
O coração do homem.
Está terminada a grande campanha!
O contentamento toca a mais íntima fibra
Do coração da pátria,
E no entanto,
É preciso dize-lo nesta hora
De suprema alegria:
Não é chegada ainda
O momento de repouso
Para os operários da liberdade.
Foi enorme a vitória.
De um golpe destruiu-se
A monstruosa iniqüidade
E desobstruiu-se o leito
Por donde agora deve passar
Com a sua impetuosidade natural,
A corrente das novas idéias.
A estrada está desobstruída.
Não há aplausos que bastem
Pra a glorificação
Do grande acontecimento.
Cena VIII
Depois
...Um ano depois
militares
republicanos
latifundiários
assumem o poder
e quebram
a dinâmica abolicionista.
1938
50 anos da decretação da Lei Áurea,
o problema ainda não foi resolvido no Brasil.
1968
80 anos depois da decretação da Lei Áurea
o problema ainda não foi resolvido no Brasil.
1988
100 anos depois da decretação da Lei Áurea
o problema ainda não foi resolvido no Brasil.
E a escravidão continua sendo
A causa e o pretexto
Para a estagnação política
E para a esterilidade de todos os esforços.
Para a inércia dos estadistas,
Assim como
A fraqueza e as hesitações dos homens públicos.
Hoje porém
A nação está convencida
De que a escravidão
É a causa de todos os vícios políticos
E fraquezas sociais,
Um obstáculo invencível ao seu progresso,
A ruína de suas finanças,
A esterilização de seu território,
A inutilização para o trabalho
De milhões de braços livres,
A manutenção do povo
Em estado de absoluta dependência
Dos proprietários:
Homens que repartem entre si
O solo produtivo.
É claro pois
Que não só os proprietários de escravos
Correm perigo,
Mas todos e a sociedade inteira
Que terá de precaver-se
Para fazer face
Ao ataque inesperado desses homens.
Neste momento preciso
Em que os gloriosos vencedores
Recolhem os troféus da vitória,
A nação convoca de novo
Os infatigáveis
Operários da liberdade.
Sim:
Que a obra não está acabada
Senão depois
Que tiver sido feita
A autonomia do cidadão!
Mas qual autonomia, qual nada,
Se a violência do dia a dia,
A fome,
A falta de condições
De higiene e moradia,
A obrigação do trabalho
Sem lazer
São – a constatação
Das mazelas
De que o povo
Tem sido vítima.
Cena IX
Denúncias
POLÍCIA AGRIDE E MATA GENTE POBRE QUE NÃO TEM ONDE MORAR.
Barbacena é célebre
Entre os tropeiros
Pela grande quantidade
De mulheres prostituídas
Que a habita.
E entre cujas mãos
Estes homens deixam
O fruto do trabalho.
Homens muitas vezes
Bastante dignos
Que não fazem
Mais do que
Conformar-se
Com os costumes gerais...
De Taubaté comunicamos
Que um horrível atentado
Revestido de todas as circunstâncias
De maior atrocidade de barbárie...
O fazendeiro
Senhor Antônio Nogueira de Barros
Moço bem apessoado
De natureza varonil
Homem de bem e bom cidadão
Foi assassinado ontem
Por seu escravo...
O assassino
Conhecido pela sua má índole
Está na cadeia
E contou tudo a sangue frio.
O finado pertence a uma família importante da cidade.
Um governador
Exigira que se usasse
Os cabelos cortados.
Das janelas de seu palácio
Avistou um mulato
Que os trazia longos.
Mandou buscá-lo
Por soldados
E, embora fosse
Um homem livre,
Mandou amarrá-lo
Ao pelourinho.
O preto fugido,
Antônio,
Escravo de José Maximiliano de Carvalho,
Por ocasião de ser capturado,
Cravou em si no ventre
Uma faca.
Cena X
Depoimentos
“PARA QUEM TRABALHO EU
SE NEGO À MINHA ALMA
OS BENS DA VIDA?”
A verdade é que o Brasil
Como em toda parte,
O liberto é incompatível
Com um regime qualquer
De economia e de ordem,
De trabalho e de moralidade.
NEGRO PREGUIÇOSO!
- Levanto por volta
Das quatro da madrugada
E apresento-me ao feitor
Para receber tarefas.
(Pense no Ideal do Paraíso Celeste!)
- Às dez horas
Almoço de cócoras
Pra não perder tempo.
E mais trabalho.
(Um dia, você tomará assento à mesa de Deus!)
À uma hora da tarde
Tomo café com rapadura ou cachaça
E mais trabalho.
Às quatro horas da tarde
Janto
E tenho alguns minutos de descanso
E mais trabalho até escurecer.
Oramos depois
Para começar o serão:
Cortar lenha – selecionar café.
(Lembre-se da plenitude aos carentes!)
Às nove horas da noite
Uma refeição rápida
Para dormir.
Levanto por volta
Das quatro da madrugada...
NEGRO PREGRIÇOSO!
LEVIANO E PROMÍSCUO!
(Calor! Alegria! Alívio! Tudo isso terá aquele que resignadamente cumprir o seu dever...)
Todos nascemos para usufruir a vida
E não produzir
Para que outros usufruam
Somos constrangidos
A trabalhar sem descanso
Para poder sobreviver
Enquanto outros usufruem.
Será que somos ainda
Incapazes de sobreviver
Sem os bons cuidados
De nossos patrões?
O meu senhor é tão bom!
Me dá bastante de comer
E ainda não me bateu seis vezes
Desde que me comprou
E me deixa tratar de minha roça.
Vou me casar
Dentro de pouco tempo
Meu senhor me ofereceu
Uma crioula,
Mas eu não a quero.
Vou me casar
Com outra mulher
Que minha senhora acaba de comprar:
É da minha terra
E fala a minha língua.
O vencido acha bastante natural
Ser a vítima de um azar
Que beneficiou o vencedor.
Os processos de extinção da escravidão
E a formação do mercado livre
Transformaram os libertos
Em trabalhadores assalariados (nós)
Disciplinados e submissos
E apesar disso,
Ou por causa disso,
Pobres e miseráveis.
A questão era
Transformar os ex-escravos
Em trabalhadores assalariados
Devidamente disciplinados
Devidamente higienizados
Devidamente imbuídos
Da ética capitalista do trabalho.
Os negros não vieram a compor
A massa dos assalariados brasileiros
Naquele período
E carregam até hoje
A pecha de que eram ociosos
E despreparados
Para a vida
Numa sociedade de mercado.
Escravidão e trabalho assalariado
Dois processos que convergem
Apenas em tese.
Temos que reconquistar a terra
De que a escravidão fez monopólio
Não dá mais para separar as duas questões:
A emancipação dos escravos
E a democratização do solo.
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