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segunda-feira, 18 de julho de 2011

20 DE NOVEMBRO


(Roteiro)
Ademar Lino
Claudinei Pereira
Oscar Ribeiro dos Santos
Sueli de Fátima Zerneri
Espírito Santo do Pinhal, 23 de junho de 1988
Grupo Ianomani de Cultura e Arte
Cena I
A viagem 
Homens...
                        Mulheres...
                                               Crianças...

Espremidos uns contra os outros
Vomitando...
Defecando...
 Horripilante atmosfera
Extremada pelo calor.

Cena II
O Navio Negreiro
Treze de Maio!
Mito histórico
Escravidão no Brasil
Libertação dos escravos...
Mas qual escravidão?
Mas qual liberdade?
Desde quando somos livres?
Até quando seremos escravos?
Levam-nos a pensar
Na escravidão do passado
Para que não percebamos
A nossa escravidão presente.
(Pobre daquele
que precisa pedir permissão
para fazer algo).
Queremos a liberdade
De poder escolher
A quem servir.
Queremos a liberdade
Até mesmo
De podermos escolher
Não servir a ninguém.
Ser livre é não ter
Que servir a ninguém!

Cena III
O batismo
Precisamos salvar a alma dos negros
Os males físicos
E a perda da liberdade
São amplamente compensados
Pelo “caminho da salvação espiritual”
Através da conversão ao cristianismo.
Tudo para o seu bem
Para a salvação de sua alma.
A virtude do homem
Está em trabalhar duro
Para o seu sustento
Em conformar-se
E manter-se manso
Como Cristo o foi.
Submeter-se à ordem vigente!
Respeitar o seu Senhor!
Arrepender-se de suas faltas!
Para alcançar o Paraíso Celeste!

Cena IV
O mercado
Vende-se por cômodo preço
Um escravo preto
De 45 anos pouco mais ou menos
Excelente oficial de pedreiro.

Aluga-se uma escrava
Para todo serviço doméstico
Na rua do Bom Jesus
Número 27.

No dia 15
Fugiu o escravo Dionísio
De 45 anos
Crioulo
Fala mansa e pausada
Modos que demonstram
Humildade
Mas também tem
Mais de 30 fugidas.

Vende-se uma escrava
No pátio de São Bento
Quarta cada do canto
Da rua Boa Vista.

Negrinha:
Existe uma
Para alugar
Na rua Góes
Número 1.

Fugiu em dias de março
O escravo Pantaleão
Baiano
30 anos
alto
fulo
nariz afilado
boa dentadura
Oferece-se boa gratificação
E protesta-se
Com todo rigor da lei
Contra quem lhe der couto.

Vende-se
Uma elegante e bonita mucama
Recolhida de casa particular
Com 18 anos mais ou menos.
Sabe engomar
Roupa de homem e senhora,
Costurar e cortar figurinos,
Tudo com perfeição.
O motivo da venda
Não desagradará o comprador.

Na travessa do Paissandu nº 3
Necessita-se de uma alugada
De 10 a 12 anos
Para lidar com crianças.
Prefere-se escrava.

Vende-se
3 excelentes escravos
sendo, um moleque
de 16 para 17 anos
Bonita figura;
outro de 35 anos,
habilíssimo em serviços de lavoura;
e uma crioula de 14 para 15 anos
Bonita estampa.

Vejam este negro:
Forte
De corpo bem feito
Bonito de cara
Canela fina
Boa dentadura
Pouca barba
Fala bem.

PRECISO DE UM ESCRAVO SADIO E FIEL.

Cena V

Zumbi
Em nome de um Deus
Supostamente branco
E
Colonizador
Que nações cristãs
Têm adorado
Como se fosse
O Deus Pai
De
Nosso Senhor Jesus Cristo,
Milhões de negros
Vêm sendo submetidos
Durante séculos
À escravidão
Ao desespero
E à morte.

Deportados como
“peças” do Ancestral Aruanda,
encheram de mão-de-obra barata
os canaviais...
as minas...
Servindo
Os brancos senhores
As brancas madames

Indivíduos desaculturados
Clandestinos
Inviáveis
Encheram as senzalas
E enchem ainda de subgente:
Cozinhas
Cais
Bordéis
Favelas
Baixadas
Xadrezes

É a lei dos brancos...

SURGE ZUMBI!
SURGE QUILOMBOS!

Floresceu a liberdade impossível
E a identidade proibida
Em nome de um Deus único
Que fez toda a carne
A preta e a branca
Vermelhas no sangue.

Vamos reconquistar Palmares
Vamos voltar à Aruanda!
Vamos garantir a paz e a liberdade
Ao povo negro
Sacrificado
Pelos poderes do império
E pelos poderes do templo.

Estamos aí!
De pé!
Quebrando muitos grilhões
Em casa
Na rua
No trabalho
Na igreja.

Fulgurantemente negros
Ao sol da luta
E da esperança;

VINTE DE NOVEMBRO
MORRE ZUMBI.

Cena VI

A festa
No último dia 10 do mês
O nosso amigo Comendador
Joaquim Batista do Amaral
Findo o toque do sino
Faz saber a toda aquela
Porção de homens
Que findava o estigma do cativeiro...

O honrado lavrador
Veio a perder alguns contos de réis,
Mas ficou amplamente compensado
No gozo da consciência...

Ele ainda fez mais:
Brindou os libertos
Com grande e lauto jantar
Em que se deram
Animadíssimas cenas de gratidão
Por parte daqueles rudes corações...

Um dos pretos levantou-se
Com esse brinde:
-         À liberdade!
Sendo seguido pelos outros:
-         Ao nosso senhor de ontem!
-         Ao nosso patrão de hoje!


Cena VII

A Lei Áurea

-         A escravidão é um atentado à dignidade humana!
-         Não vou dar a liberdade!
-         Devemos minorar as angústias dos escravos!
-         O escravo é meu!
-         Temos que lhes suavizar as condições de existência!
-         Alforria jamais!
-         A lei terá que por fim a tamanhas atrocidades!
-         Paguei caro pelo meu escravo!
-         É infame, é degradante a escravidão!
-         Quem pagará pelos meus prejuízos?
-         Precisamos tirar os escravos das fazendas!
-         Quem trabalhará nos canaviais?

-         Meu Deus! Não há mais escravos em minhas terras!

Houve grande agitação para que a Lei Áurea fosse promulgada.
A PRINCESA IMPERIAL REGENTE EM NOME DE SUA MAJESTADE O IMPERADOR
D. PEDRO II, FAZ SABER A TODOS OS SÚDITOS DO IMPÉRIO QUE A ASSEMBLÉIA
GERAL DECIDIU E ELA SANCIONOU A SEGUINTE LEI:
Art. 1º - É declarada extinta desde a data desta Lei a escravidão no Brasil.
Art. 2º - Revogam-se as disposições em contrário.

A partir deste instante
A liberdade será algo vivo e transparente
Como o fogo ou um rio,
Ou como a semente de trigo,
E sua morada será sempre
O coração do homem.

Está terminada a grande campanha!
O contentamento toca a mais íntima fibra
Do coração da pátria,
E no entanto,
É preciso dize-lo nesta hora
De suprema alegria:
Não é chegada ainda
O momento de repouso
Para os operários da liberdade.

Foi enorme a vitória.
De um golpe destruiu-se
A monstruosa iniqüidade
E desobstruiu-se o leito
Por donde agora deve passar
Com a sua impetuosidade natural,
A corrente das novas idéias.

A estrada está desobstruída.
Não há aplausos que bastem
Pra a glorificação
Do grande acontecimento.
  

Cena VIII

Depois
...Um ano depois
militares
republicanos
latifundiários
assumem o poder
e quebram
a dinâmica abolicionista.

1938
50 anos da decretação da Lei Áurea,
o problema ainda não foi resolvido no Brasil.

1968
80 anos depois da decretação da Lei Áurea
o problema ainda não foi resolvido no Brasil.

1988
100 anos depois da decretação da Lei Áurea
o problema ainda não foi resolvido no Brasil.

E a escravidão continua sendo
A causa e o pretexto
Para a estagnação política
E para a esterilidade de todos os esforços.
Para a inércia dos estadistas,
Assim como
A fraqueza e as hesitações dos homens públicos.

Hoje porém
A nação está convencida
De que a escravidão
É a causa de todos os vícios políticos
E fraquezas sociais,
Um obstáculo invencível ao seu progresso,
A ruína de suas finanças,
A esterilização de seu território,
A inutilização para o trabalho
De milhões de braços livres,
A manutenção do povo
Em estado de absoluta dependência
Dos proprietários:
Homens que repartem entre si
O solo produtivo.

É claro pois
Que não só os proprietários de escravos
Correm perigo,
Mas todos e a sociedade inteira
Que terá de precaver-se
Para fazer face
Ao ataque inesperado desses homens.

Neste momento preciso
Em que os gloriosos vencedores
Recolhem os troféus da vitória,
A nação convoca de novo
Os infatigáveis
Operários da liberdade.

Sim:
Que a obra não está acabada
Senão depois
Que tiver sido feita
A autonomia do cidadão!

Mas qual autonomia, qual nada,
Se a violência do dia a dia,
A fome,
A falta de condições
De higiene e moradia,
A obrigação do trabalho
Sem lazer

São – a constatação
Das mazelas
De que o povo
Tem sido vítima.

Cena IX

Denúncias
POLÍCIA AGRIDE E MATA GENTE POBRE QUE NÃO TEM ONDE MORAR.
Barbacena é célebre
Entre os tropeiros
Pela grande quantidade
De mulheres prostituídas
Que a habita.
E entre cujas mãos
Estes homens deixam
O fruto do trabalho.

Homens muitas vezes
Bastante dignos
Que não fazem
Mais do que
Conformar-se
Com os costumes gerais...

De Taubaté comunicamos
Que um horrível atentado
Revestido de todas as circunstâncias
De maior atrocidade de barbárie...

O fazendeiro
Senhor Antônio Nogueira de Barros
Moço bem apessoado
De natureza varonil
Homem de bem e bom cidadão
Foi assassinado ontem
Por seu escravo...
O assassino
Conhecido pela sua má índole
Está na cadeia
E contou tudo a sangue frio.

O finado pertence a uma família importante da cidade.

Um governador
Exigira que se usasse
Os cabelos cortados.

Das janelas de seu palácio
Avistou um mulato
Que os trazia longos.
Mandou buscá-lo
Por soldados
E, embora fosse
Um homem livre,
Mandou amarrá-lo
Ao pelourinho.
O preto fugido,
Antônio,
Escravo de José Maximiliano de Carvalho,
Por ocasião de ser capturado,
Cravou em si no ventre
Uma faca.

Cena X
Depoimentos
“PARA QUEM TRABALHO EU
SE NEGO À MINHA ALMA
OS BENS DA VIDA?”

A verdade é que o Brasil
Como em toda parte,
O liberto é incompatível
Com um regime qualquer
De economia e de ordem,
De trabalho e de moralidade.

NEGRO PREGUIÇOSO!

-         Levanto por volta
Das quatro da madrugada
E apresento-me ao feitor
Para receber tarefas.

(Pense no Ideal do Paraíso Celeste!)

-         Às dez horas
Almoço de cócoras
Pra não perder tempo.
E mais trabalho.

(Um dia, você tomará assento à mesa de Deus!)

À uma hora da tarde
Tomo café com rapadura ou cachaça
E mais trabalho.

Às quatro horas da tarde
Janto
E tenho alguns minutos de descanso
E mais trabalho até escurecer.

Oramos depois
Para começar o serão:
Cortar lenha – selecionar café.

(Lembre-se da plenitude aos carentes!)

Às nove horas da noite
Uma refeição rápida
Para dormir.

Levanto por volta
Das quatro da madrugada...

NEGRO PREGRIÇOSO!
LEVIANO E PROMÍSCUO!

(Calor! Alegria! Alívio! Tudo isso terá aquele que resignadamente cumprir o seu dever...)

Todos nascemos para usufruir a vida
E não produzir
Para que outros usufruam

Somos constrangidos
A trabalhar sem descanso
                                                                                                                                                                    Para poder sobreviver
Enquanto outros usufruem.

Será que somos ainda
Incapazes de sobreviver
Sem os bons cuidados
De nossos patrões?

O meu senhor é tão bom!
Me dá bastante de comer
E ainda não me bateu seis vezes
Desde que me comprou
E me deixa tratar de minha roça.

Vou me casar
Dentro de pouco tempo
Meu senhor me ofereceu
Uma crioula,
Mas eu não a quero.
Vou me casar
Com outra mulher
Que minha senhora acaba de comprar:
É da minha terra
E fala a minha língua.

O vencido acha bastante natural
Ser a vítima de um azar
Que beneficiou o vencedor.

Os processos de extinção da escravidão
E a formação do mercado livre
Transformaram os libertos
Em trabalhadores assalariados (nós)
Disciplinados e submissos
E apesar disso,
Ou por causa disso,
Pobres e miseráveis.

A questão era
Transformar os ex-escravos
Em trabalhadores assalariados
Devidamente disciplinados
Devidamente higienizados
Devidamente imbuídos
Da ética capitalista do trabalho.

Os negros não vieram a compor
A massa dos assalariados brasileiros
Naquele período
E carregam até hoje
A pecha de que eram ociosos
E despreparados
Para a vida
Numa sociedade de mercado.

Escravidão e trabalho assalariado
Dois processos que convergem
Apenas em tese.

Temos que reconquistar a terra
De que a escravidão fez monopólio
Não dá mais para separar as duas questões:
A emancipação dos escravos
E a democratização do solo. 

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